Notícias do Cruzeiro: Ex-goleiro Aranha conversa sobre racismo com atletas da base celeste 1 minuto ago

No mês de agosto daquele ano, em uma partida entre Grêmio e Santos válida pelas oitavas de final da Copa do Brasil, o então goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, mais conhecido como Aranha, teve uma grande atuação ajudando o Santos a vencer o duelo. Mas durante a partida, o jogador foi insultado por parte dos torcedores adversários, que imitavam macaco em clara ofensa racista. Os gestos foram flagrados pelas câmeras de TV.

Desde o acontecido, Aranha passou a ter uma forte atuação no combate ao racismo no esporte. Nesta quarta-feira, a pedido de Wendel, treinador da equipe Sub-14 do Cruzeiro e que jogou com Aranha na Ponte Preta-SP, o ex-goleiro participou de um bate-papo on-line com atletas da base cruzeirense. Participaram da conversa garotos do Sub-11 ao Sub-16.

Aranha começou falando sobre o histórico dos negros no futebol brasileiro. Falou também do preconceito com os goleiros negros, desde os tempos de Barbosa na Copa do Mundo de 1950.

“Eu não conseguia muitos testes porque o goleiro negro não era confiável. Até que vieram Dida e Jeferson, que jogaram no Cruzeiro, e tiveram sucesso na Seleção Brasileira. Eles quebraram o estigma de que goleiro negro não era confiável”, revelou.

“O futebol chegou ao Brasil seis anos após o fim da escravidão. Era um esporte para a elite branca. O negro não podia se associar a um clube para jogador futebol, não tinha condições financeiras e não era aceito. Até hoje temos pessoas que não aceitam os negros, coisas passadas de pais para filhos”, completou.

O ex-jogador comentou sobre a noite marcante em Porto Alegre, quando todo o mundo assistiu às ofensas racistas sofridas por ele.

“No jogo contra o Grêmio, eu me concentrei na hora dos xingamentos porque sabia que não poderia errar. Se eu cometesse algum erro, o foco seria nisso e não nas ofensas. Na época eu e meus companheiros fomos ao árbitro pedir ele tomar alguma atitude, mas o juiz não quis fazer nada e seguiu o jogo, mas a partida foi transmitida para todo país e todo mundo viu o que aconteceu”, contou.

Apesar do lance de 2014 ter ficado marcado para todo mundo, Aranha revelou que já passou por situações ainda piores na sua carreira.

“Uma vez jogando no interior de Santa Catarina, a torcida jogou copos com urina em cima de mim, falando que agora o macaco estava limpo. Como a partida não tinha transmissão, o caso não teve repercussão, não tinha imagens. Nessas situações temos que tentar manter a calma, se eu revidar ou fizer alguma coisa, vão focar somente na minha reação. É muito difícil, temos que pensar bem antes de tomar qualquer atitude raivosa”, falou.

Aranha destacou a importância do apoio e da união dos companheiros em qualquer caso de discriminação, seja racismo, homofobia ou outro preconceito.

“Vocês precisam fazer duas coisas se acontecer algo parecido perto de vocês. Primeiro é não deixar o companheiro sozinho. Segundo é falar que sentiu como foi se fosse com um irmão de vocês. Temos que sentir a dor dos companheiros, hoje a vaia é em um, amanhã será com outro. Todo mundo pode passar por uma situação difícil”, ensinou.

Ele também comentou sobre situações de racismo estrutural nas categorias de base de vários clubes brasileiros.

“Alguns diretores preferem selecionar nos testes atletas brancos, que podem tirar passaporte europeu, do que os negros. Eles não pensam no atleta atuando em seus clubes e sim em vendas para Europa. O negro quando é vendido ele tem que ser muito acima da média, estar na seleção. Já o branco com passaporte europeu tem maior facilidade”, finalizou.

O evento faz parte do trabalho da formação integral dos atletas, proposto pela diretoria estrelada. As jovens promessas cruzeirenses participaram de atividades extracampo que buscam trazer um crescimento social, intelectual e de cidadania.

Desde o ano passado, o Cruzeiro Esporte Clube possui um Comitê de Diversidade e Inclusão, responsável por discutir temas cruciais e desenvolver projetos sobre equidade de gênero, pessoa com deficiência, LGBTQI+ e diversidade racial, norteando as ações, políticas e planejamento do clube nestas áreas. O comitê está acompanhando esta importante iniciativa da base.

Foto: Reprodução

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