Futebol, administração e cenário político: Carlos Ferreira projeta reconstrução do Cruzeiro em até cinco anos: ‘Vamos sair dessa’

Interlocutor do núcleo gestor com o departamento de futebol afirmou ao Superesportes que clube se fortalecerá em quatro ou cinco anos

Carlos Ferreira Rocha, de 52 anos, é sócio dos clubes de lazer do Cruzeiro desde a década de 1990. Em 2011, tornou-se membro efetivo do Conselho Deliberativo. Até o fim de 2019, a rotina de trabalho do empresário e advogado consistia em dirigir a rede Uberaba de supermercados e frigoríficos, com unidades em Belo Horizonte, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Os rumos começaram a mudar a partir de dezembro, quando foi convidado a participar do Núcleo Dirigente Transitório, formado após a renúncia do ex-presidente Wagner Pires de Sá. Inicialmente, atuou nas áreas de marketing e publicidade. Com a saída de Pedro Lourenço do grupo gestor, em 9 de janeiro, passou a ser o interlocutor do futebol.

De maneira repentina, Carlos Ferreira foi de torcedor de arquibancada a responsável por decisões importantes no Cruzeiro. Entre as tarefas diárias estão reuniões com o diretor Ocimar Bolicenho, o técnico Adilson Batista, dirigentes de outros clubes e empresários de jogadores, além de entrevistas coletivas e exclusivas a veículos de imprensa e interação com os cruzeirenses por meio de um perfil recém-criado no Twitter.
“Sou muito religioso e entendo que nada acontece por acaso. Se estou hoje dentro do departamento de futebol do Cruzeiro é porque Deus entendeu que eu teria que estar. Partindo desse mandamento, dessa honra que Deus me concedeu, tenho me dedicado ao máximo e vivido o Cruzeiro 24 horas por dia. Durmo pensando no Cruzeiro e acordo pensando no Cruzeiro. Tenho certeza que vamos sair dessa”, afirmou, em entrevista ao Superesportes.
Atualmente, segundo ele, as atividades estão divididas em “80% para o Cruzeiro” e 20% para os negócios particulares. Agenda semelhante vivem outros integrantes da força-tarefa: Saulo Fróes (presidente do núcleo gestor), Emílio Brandi (vice-presidente administrativo e financeiro), Kris Brettas (superintendente jurídico), Anísio Ciscotto (financeiro), Jarbas Reis (administrativo e informática) e Gustavo Gatti (marketing, publicidade, comercial e patrimônio).
“No início era mais difícil. Houve a renúncia (do ex-presidente Wagner Pires de Sá) no dia 22, e no dia 23 nós assumimos. Foi um momento muito turbulento para que fizéssemos a conciliação de trabalho na empresa e no Cruzeiro. Mas hoje está mais tranquilo, já deu para organizar na empresa e hoje a maior parte do trabalho é dedicado ao Cruzeiro”, contou o dirigente.
A gestão de Wagner Pires de Sá deixou muitas heranças negativas para o Cruzeiro: dívida total superior a R$ 800 milhões e quatro meses de salários atrasados. Em meio ao turbilhão de problemas, o núcleo gestor estabeleceu teto de R$ 150 mil em remunerações para 2020, com a diferença sendo paga de maneira parcelada aos atletas em 20 vezes, a partir de abril de 2021.
O goleiro Fábio, o lateral-direito Edilson, o zagueiro Leo, o volante Ariel Cabral e o meia Robinho aceitaram os acordos propostos. O Cruzeiro ainda aliviou suas despesas ao emprestar o lateral-direito Orejuela (Grêmio), o zagueiro Manoel (Trabzonspor, da Turquia), o volante Henrique (Fluminense) e o meia Marquinhos Gabriel (Athletico-PR). Em contrapartida, houve quem acionasse o clube na Justiça, casos do goleiro Rafael, do zagueiro Fabrício Bruno, do volante Éderson, do meia Thiago Neves e dos atacantes Fred e David.
De acordo com Carlos Ferreira, as repactuações salariais representarão gasto aproximado de R$ 2,5 milhões por mês a partir de 2020 – o que significa débito geral de R$ 50 milhões. Vale ressaltar que Rafael, Fabrício Bruno, Éderson e David já retiraram seus processos contra o Cruzeiro.
“Tudo isso faz parte do nosso planejamento financeiro. Tanto agora quanto para 2021. Nossa folha era R$ 15 milhões e baixou para pouco mais de R$ 2,5 milhões. Temos um planejamento que essas repactuações estarão na casa dos R$ 5 milhões (folha atual + repactuações). Está dentro daquilo que cabe para um clube do tamanho do Cruzeiro, com verbas de patrocínio, vendas de jogadores. Dá para gerir tranquilo”.
No bate-papo com a reportagem do Superesportes, Carlos falou sobre vários temas. Na política, confirmou apoio a Emílio Brandi na eleição-tampão de 21 de maio, embora considere Sérgio Santos Rodrigues preparado para administrar o clube. Também ressaltou que a continuidade do Núcleo Dirigente Transitório facilitará os caminhos para o candidato que vencer o pleito de outubro, com mandato de 2021 a 2023. O entrevistado ainda comentou as cifras milionárias que circulam no futebol, a relação com empresários de jogadores e a expectativa de ver o Cruzeiro livre de dívidas e brigando por títulos importantes em quatro ou cinco anos.

Entrevista com Carlos Ferreira Rocha

Já imaginava em algum dia conduzir o departamento de futebol do Cruzeiro?
“Sou muito religioso e entendo que nada acontece por acaso. Se estou hoje dentro do departamento de futebol do Cruzeiro é porque Deus entendeu que eu teria que estar. Partindo desse mandamento, dessa honra que Deus me concedeu, tenho me dedicado ao máximo e vivido o Cruzeiro 24 horas por dia. Durmo pensando no Cruzeiro e acordo pensando no Cruzeiro. Tenho certeza que vamos sair dessa”.
Como os integrantes do Núcleo Dirigente Transitório do Cruzeiro conciliam as atividades profissionais com o trabalho voluntário no clube?
“No início era mais difícil. Houve a renúncia (do ex-presidente Wagner Pires de Sá) no dia 22, e no dia 23 nós assumimos. Foi um momento muito turbulento para que fizéssemos a conciliação de trabalho na empresa e no Cruzeiro. Mas hoje está mais tranquilo, já deu para organizar na empresa e hoje a maior parte do trabalho é dedicado ao Cruzeiro”.
Você chegou ao futebol agora. Os valores, as negociações e as cláusulas contratuais te surpreenderam?
“A forma de negociação não me surpreendeu, pois experiência em negociação e feeling eu tenho, são 35 anos de mercado. Agora, com relação aos contratos, isso, sim, me surpreendeu. Contratos lesivos ao Cruzeiro, que nem se fossem feitos pelo nosso maior rival para nos prejudicar, seriam tão ruins”.
Qual a garantia que vocês têm que conseguirão pagar todo o valor que foi repactuado com os jogadores a partir de abril de 2021? E se o acesso à Série A não acontecer?
“Tudo isso faz parte do nosso planejamento financeiro. Tanto agora quanto para 2021. Nossa folha era R$ 15 milhões e baixou para pouco mais de R$ 2,5 milhões. Temos um planejamento que essas repactuações estarão na casa dos R$ 5 milhões (folha atual repactuações). Está dentro daquilo que cabe para um clube do tamanho do Cruzeiro, com verbas de patrocínio, vendas de jogadores. Dá para gerir tranquilo”.
Você deu entrevista falando que a “sangria havia sido estancada no Cruzeiro”. Como está o cenário atual?
“A sangria foi estancada. Desde que assumimos não fizemos nenhuma bobagem, nenhum negócio ruim para o Cruzeiro. Existem algumas situações que ainda nos surpreendem, mas aquela bola de neve que encontramos perdeu força, está pequeninha”.
Em recente entrevista, você chamou o empresário André Cury, representante de jogadores que acionaram o Cruzeiro na Justiça, de persona non grata no Cruzeiro. O clube, porém, segue negociando com atletas ligados ao agente, casos do zagueiro Ramon e do atacante Angulo. Chegou a aparar as arestas com ele?
“Ficamos um bom tempo sem conversar, mas depois intermediaram um novo encontro entre ele eu. Nós acertamos isso. Tanto que ele recuou, fez o acerto com o David, que já estava liberado na Justiça e jogando pelo Fortaleza. Ele recuou e fez o acerto também com o Éderson. São situações que, com muito diálogo, tudo que vai beneficiar o Cruzeiro, é bem-vindo. Não tenho nada pessoal contra o André Cury, mas se houver uma situação prejudicial ao Cruzeiro, independentemente de qualquer empresário, haverá briga. Nós não vamos deixar”.
Com relação ao Portal da Transparência do Cruzeiro, torcedores e imprensa terão acesso a dados como dívidas, despesas e receitas? Quando isso será feito?
“O Portal da Transparência está em construção, ele foi lançado e vamos alimentá-lo com conteúdo. É necessário, para que todos saibam o que ocorreu no Cruzeiro, é preciso que as investigações terminem. Agora, a questão atual, aos poucos vamos lançando dados no portal. Não quero dar prazo, mas está avançando e todo mundo está trabalhando para levar essa transparência para a torcida, para a imprensa”.
Aproveitando que você falou nas investigações, qual a expectativa de vocês para que tudo seja esclarecido?
“Esperamos que seja o quanto antes. Confiamos muito na Polícia Civil, no Ministério Público. E que no tempo mais célere possível seja dada essa resposta”.
O que vocês esperam do programa de sócio-torcedor?
“O sócio Reconstrução foi lançado de forma emergencial, para pagarmos dívidas urgentes, como salários de funcionários. Infelizmente nosso departamento de TI não comportava o volume de sócios que a gente imaginava. Já a empresa que trabalhava para nós garantiu que suportaria a adesão em massa, o que não foi verdade. Então, tivemos muitos problemas. E quando algum torcedor que queria ajudar e não conseguiu aderir, acabou esfriando. Até por ser contributivo, não havia quase nenhuma vantagem. Ainda assim, nossa adesão foi alta, em torno de 46 mil, mas poderia ter sido melhor. Vamos realizar novas ações para a torcida aderir tanto ao cativo quanto ao Reconstrução”.
Sobre a eleição presidencial para o mandato-tampão, qual é seu candidato nas eleições do dia 21 de maio?
“Faço parte do Núcleo Dirigente Transitório e como tal apoio o Emílio Brandi, se não o apoiasse seria traição. Se não existisse um candidato do núcleo estaria ao lado do Sérgio Santos Rodrigues, que entendo ser um bom nome. Mas estou com Emílio, uma pessoa séria, muito competente. E o núcleo precisa chegar até o fim do ano, até para o próximo presidente pegar um clube mais fácil de gerir”.
100% dos membros do Núcleo Dirigente Transitório estão com o Emílio Brandi?
“Isso não posso te falar, tem de perguntar aos outros”.
Foto: Web

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Como você viu o surgimento da chapa do Sérgio Santos Rodrigues?
“Acho que não deveria haver a disputa, apesar de se democrático, pelo momento do Cruzeiro. Se o Cruzeiro estivesse nadando em dinheiro, seria outra situação. Mas o ideal seria haver consenso para que o NDT seja mantido até o fim do ano. Por amor ao Cruzeiro deveria haver consenso”.
Mas você ainda acredita em um acordo para ter chapa única?
“Claro, Sérgio é um grande cruzeirense, assim como o Emílio. São pessoas inteligentes e que certamente irão achar o melhor caminho para ajudar o Cruzeiro”.
Caso a união não ocorra e o Sérgio vencer, você vê possibilidade de seguir no futebol do Cruzeiro?
“Tem de perguntar para eles (risos). Tenho admiração muito grande tanto pelo Sérgio quanto pelo Emílio. Meu desejo é ajudar o Cruzeiro, minha paixão, seja qual for o presidente”.
Qual a responsabilidade do próximo presidente do Cruzeiro? O caminho é passar um tempo sem ganhar títulos e pagando dívidas, como fez o Flamengo?
“A responsabilidade do próximo presidente não difere da nossa. Temos muita responsabilidade de colocar o Cruzeiro no caminho certo e até agora conseguimos muitas situações vantajosas. O Flamengo é referência, sim. A torcida tem de ter paciência. Dentro de quatro, cinco anos, vamos voltar a ser aquele Cruzeiro de 2013, 2014, 2017”.
Da redação:superesportes

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